Do isolamento ao acesso.

Artigo publicado em 11 de dezembro de 2008

Já na primeira mesa do Forum, Alex Corenthin, de Senegal chamou atenção para o fato de que em muitos países africanos a língua nacional oficial não é aquela falada pela maioria das pessoas. Há algumas linguas faladas correntemente em países africanos, e dialetos, que ainda não preencheram seu espaço a ocupar na Rede Aberta Mundial (WWW).

Também no primeiro Podcast Interconexões humanas, uma pesquisa-programa-ação da Rede Da Quebrada pra Estrada, realizado por artistas, educadores e produtores culturais em países de língua portuguesa para promover o encontro e a transmissão de dados pela internet, o maputano Sgee declarou que há pouco conteúdo em português, de seu país, e que em suas navegações frequentemente percorre domínios brasileiros e portugueses.

Se considerarmos que apenas 40% da população moçambicana fala Português, fica evidente a carência de conteúdo de possível navegação para a população local. A barreira maior que a conexão é cognição que afasta potenciais usuários de conhecer o universo da Internet.

Na perspectiva de Pierre Lévy, a situação da inclusão digital é secundária à questão da alfabetização. Para ele, o principal obstáculo à participação na inteligência coletiva não é a falta de computador, mas o analfabetismo e a falta de recursos culturais. Além disso, considera que as experiências políticas, atividades militantes e comunidades virtuais na Internet são iniciativos que promovem o desenvolvimento social e político do mundo contemporâneo.

A mesa de Multilingualismo do IGF vem justamente procurar soluções para estas assimetrias, para que o acesso seja democraticamente viável. Este é um desafio que requer o envolvimento de todos, inclusive o Governo, para garantir que o cyberespaço compreenda todos os grupos étnicos e inclua minorias culturais.

Em minha experiência pessoal de navegação, transito predominantemente em páginas de língua inglesa. Geralmente as buscas apresentam mais opções e aprofundamento maior. Além da sofisticação estética e da fluidez na navegação propiciada pelos hyperlinks. Muitas vezes me deparo com um site japonês ou árabe, o que me leva a vislumbrar outros universos aos quais não tenho acesso.

Hoje em dia, existêm ferramentas de tradução on-line que auxiliam na elucidação de muitas dúvidas e um número crescente de sites estão disponíveis em mais de uma língua, o que amplia a perspectiva e as opções de busca, navegação e pesquisa. A produção de conteúdo nacional cresce com a expansão do número de usuários, além de crescer diversifica e complexibiliza-se diante das múltiplas midias e conexões.

Expandir o acesso é importante, mas não o suficiente para criar um ambiente propício e convidativo aos que ainda não mergulharam no oceano da internet. O importante é expandir o conteúdo relevante para os usuários em diferentes línguas e promover a produção local colaborativa que busque sustentabilidade econômica em modelos inovadores de empreendedorismo e estratégias de geração de emprego e renda, sobretudo em países em desenvolvimento.

Esta produção envolve a comunidade em torno de um projeto de re-significação da identidade que parte da reconstrução do histórico do bairro através dos relatos de pessoas conhecidas e circula em redes sociais e comunidades virtuais através das quais individuos e redes se interconectam e interagem em dinâmica transformação.

A educação reforça seu valor, ao passo que exige adaptações. O aprendizado mais liver oferece autonomia aos estudantes e o professor pode explorar as vantagens informativas da busca livre do aluno enquanto orienta, faz a gestão do conteúdo e investe na formação de conceitos críticos valiosos para o desenvolvimento do ser humano.

O próprio papel do professor se re-significa e assume outra importância, menos enquanto fornecedor de conhecimento e mais enquanto mediador de caminhos e cursos, em constante formação para reafirmar a exelência de sua posição. Com a maior exposição das pessoas, as mais instruidas levam consideravel vantagem, tanto no manuseio dos artefatos tecnológicos, quanto na articulação das idéis e da forma com que as expressa. A aprendizagem ganha liberdade e autonomia em uma evolução cada vez mais rápida e complexa. Os mais atentos a este processo já buscam iniciar ou continuar sua formação aprofundando estudos, especializando-se, formalizando certificados e diplomas.

A procura por cursos de graduação e pós-graduação aumenta assim como a quantidade pessoas formadas. O próprio mercado estratifica atribuindo reputações e remunerações de acordo com status profissional e acadêmico. Novas estratégias se inscrevem no cotidiano das pessoas, cultivar seu currículo e encaminhar para ofertas que aparecem on-line.

Neste contexto, conhecer outras línguas ganha valor, indica erudição intelectual e versatilidade em lidar com questões de compreensão e comunicação, representa liberdade para transitar para além do conteúdo em uma lingua e portanto em um universo mais amplo de conhecimento. Cursos on-line gratuitos oferecem material para auto-ditatas que estudam informações em outras línguas combinando acesso, língua e conhecimento em estratégias de desenvolvimento humano.

Pedro Campos

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